País precisa reduzir gasto de energia com urgência, diz especialistas

País precisa reduzir gasto de energia com urgência, diz especialistas

A crise no setor elétrico brasileiro é grave, o país está sob risco de falta de energia e de novos apagões, como o de segunda-feira (19), e, para enfrentar esses problemas, é urgente que o governo adote medidas para reduzir o consumo de eletricidade, até mesmo via racionamento.

O diagnóstico foi feito por especialistas ouvidos pelo G1 a respeito do agravamento da situação nos reservatórios das principais hidrelétricas do país, que sofrem com a falta de chuvas em pleno período úmido, e da crescente desconfiança sobre o sistema nacional de geração e transmissão após mais um corte de luz atingir o país – além da ausência de transparência do governo ao tratar do problema.

O governo, no entanto, não admite a possibilidade de racionamento ou de falta de energia. Na terça-feira, o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, afirmou que "não há previsão de racionamento" de energia no país. “Pode assegurar ao povo e aos trabalhadores brasileiros que nos temos energia para atendê-los”, disse o ministro.

De acordo com a consultoria PSR, uma das principais do setor elétrico, o risco de haver um racionamento no país, ainda em 2015, já ultrapassa 50%. A empresa ressalta, porém, que essa condição pode mudar ao longo das próximas semanas, dependendo de como o regime de chuvas e o consumo de energia se comportará.

“Em virtude das vazões do mês de janeiro estarem se concretizando como as piores do histórico (nas regiões Sudeste/Centro-Oeste é a pior do histórico) e o nível dos reservatórios ser o pior do histórico para este mês, o risco de haver racionamento está se elevando”, diz a PSR.

“Estimávamos em dezembro risco de 21% de se decretar um racionamento. Com base na informação hidrológica da última sexta-feira (16), este risco já ultrapassa 50% para as regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul”, completa a consultoria. 

Para o presidente do Instituto Acende, Claudio Sales, o racionamento, se vier a ser adotado, será apenas ao final do período de chuvas, entre março e abril. Até lá, existe a chance de as chuvas voltarem e os reservatórios se encherem o suficiente para garantir o abastecimento de energia ao longo de 2015.

De acordo com o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a falta de energia neste ano estará descartada se os reservatórios das hidrelétricas do Sudeste e Centro-Oeste, responsáveis por cerca de 70% da capacidade de geração do país, chegarem ao final de abril com nível de armazenamento em 33%. Atualmente, estão, em média, com 17,63%.

“A situação é extremamente grave. Tanto do ponto de vista financeiro – o setor como um todo está em déficit, da ordem de dezenas de bilhões de reais –, quanto de abastecimento”, diz Sales.

Sales diz que “há um tremendo ponto de interrogação sobre se vamos ter condições de garantir o abastecimento de energia em 2015” e, para enfrentar essa situação, é preciso que o governo atue com transparência, o que não vem ocorrendo.

Além disso, segundo o presidente do Instituto Acende, “o governo deve considerar a possibilidade de um racionamento” para reduzir o consumo de energia.

Para o professor do departamento de Energiada Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Gilberto de Martino Jannuzzi, o setor elétrico brasileiro enfrenta problema grave há um longo tempo, que não tem sido solucionado pelo governo, e sofre com desgaste na geração, transmissão e distribuição de energia.

“Existem problemas de gestão, de coordenar as várias fases do sistema de eletricidade, na licitação de empreendimentos de geração. Além disso, vemos dificuldades nos leilões de transmissão [para construção de redes de transporte de energia] e gargalos na distribuição”, diz o professor.

Jannuzzi afirma que, nos últimos anos, o governo incentivou o consumo de energia, quando na verdade deveria fazer o contrário. Umas das medidas que levou nessa direção foi o plano da presidente Dilma Rousseff que, no início de 2013, reduziu em 20% o valor da eletricidade no país. De lá para cá, esse desconto foi praticamente revertido devido a gastos extras no setor repassados às contas de luz.

“O governo demorou para adotar medidas de restrição ao consumo, errou enormemente com essa concepção de que os riscos de déficit estavam resolvidos. Não estão e ignora o que estamos conhecendo sobre mudanças climáticas. O sistema elétrico ainda é muito vulnerável a essas mudanças, apesar de ter sido reforçado o nosso parque termelétrico”.

As termelétricas, que geram energia por meio de combustíveis como óleo e gás, não dependem do clima e, quando acionadas, ajudam a poupar água dos reservatórios das hidrelétricas. Entretanto, a eletricidade produzida por elas é mais cara e afeta as contas de luz.

Desde o final de 2012 o governo vem usando todas as termelétricas disponíveis, devido à situação das hidrelétricas. Essa medida já gerou uma conta bilionária que está sendo repassada às tarifas.

Para o professor da Unicamp, o racionamento já deveria ter sido implantado pelo governo principalmente devido à situação mais grave do Sudeste, que enfrenta crise também no abastecimento de água.

Nivalde de Castro, coordenador do Gesel (Grupo de Estudos do Setor Elétrico) da UFRJ e Erik Rego, diretor da consultoria Excelência Energética, criticam o governo por não promover desde o ano passado uma campanha de redução do consumo de energia.

"A reserva que tínhamos eram as térmicas, que já passaram da condição de reserva para atendimento normal. Então, no curto prazo, não há muito como subir a oferta. Só dá para atuar no consumo. É preciso ser transparente com a sociedade, falar que em um problema e pedir para a população economizar", diz Erik Rego.

"Nesse primeiro momento não vamos ter racionamento, o risco é de blecaute nos horários de pico, porque não estamos conseguindo atender a ponta. Portanto, seria muito importante e oportuna uma campanha direcionada à população. Mesmo porque a eleição já passou", afirma Nivalde.

Para eles, qualquer decisão sobre racionamento da oferta de energia só deverá ser anunciada após o término do período de chuva, em abril.

"Nesse momento, o que temos é risco de blecaute, porque estamos tendo um desequilíbrio entre oferta e demanda. Em abril vamos saber se teremos efetivamente racionamento. Tudo vai depender do nível dos reservatórios", diz Nivalde.

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