Racionamento de água e energia será inevitável em 2015.

Racionamento de água e energia será inevitável em 2015.

O sociólogo, escritor e cientista político Sérgio Abranches, especialista em Ecopolítica, disse nesta terça-feira, no Recife, em palestra no RioMar Shopping, sob o tema “O cenário político-econômico diante da crise de água e energia”, que o Brasil não tem como fugir de racionamentos de energia e de água no segundo semestre.

“Vai ter racionamento de água e energia no Brasil com toda certeza. Podem fazer apagões, podem mentir, mas vai ter. O atual nível dos reservatórios está bem abaixo do que estávamos em 2014 e o período de chuvas está passando”, justificou. “Não vamos conseguir sustentar a situação e vamos ter que acionar as térmicas, mais caras. Não vai dar para reprimir o custo disto na inflação, como se fez no ano eleitoral”, disse, prevendo que as hidrelétricas vão parar no segundo semestre deste ano.

Quando falou da crise hídrica no Sudeste, Sérgio Abranches afirmou que a bacia do Cantareira não tem água por um motivo simples e ele não é a estiagem. Ele reclamou de mananciais e reservatórios desprotegidos e mal cuidados. “A bacia foi mal tratada. Não tem mais cobertura vegetal nem se fez reflorestamento. A seca do Sudeste mostrou que o problema não existe só na literatura. Aliás, no Sudeste, o nome não é seca. Quem sabe por preconceito (com o Nordeste), o nome é crise hídrica”, brincou.

Na sua palestra, o especialista em sustentabilidade defendeu que a água deveria ser mais cara para produção, em especial a irrigação, que poderia buscar ser mais eficiente. Esse consumo perdulário também deveria ser combatido com a redução das perdas de águas produzidas pelas concessionárias. Outra sugestão apresentada seria discriminar a origem da energia consumida, de modo a incentivar a compra de energia limpa e de outras fontes. “Nós não sabemos a energia que chega a nossa casa. Vem misturado o sujo e o limpo. O governo entrega um pacote caro e péssimo”, comparou.

A saída para o Nordeste, na sua avaliação, seria apostar fortemente na energia eólica e solar, com mais placas voltaicas. Ele defendeu que a alternativa, especialmente o agreste, gera até mais empregos do que a opção hidrelétrica, que dispensa um grande volume de trabalhadores quando os reservatórios são concluídos.

No evento, o palestrante desancou ainda o projeto da transposição do são Francisco, afirmando que era um crime demagógico e que não ajudaria a região. “Não se faz transposição de areia. Deveriam ter feito a recuperação do rio primeiro”, defendeu.

Nesta encruzilhada, como deveria ser arbitrado a questão do uso múltiplo das águas do São Francisco? Para o especialista, o governo deveria fazer como os americanos da Califórnia. “Não tem demagogia. Eles oferecem 25% da demanda de água e a prioridade é o uso humano, que é o uso mais nobre, essencial. A agricultura tem que produzir de modo mais inteligente, eficiente. Tem que aprender a racionalizar, pois a seca vai piorar. O Nordeste pode ficar rico fazendo uso de energia limpa, usando o sol e os ventos. Usem”, incentivou.

Popularidade sem recuperação

Sérgio Abranches afirmou ainda que, em função de todos os problemas a serem enfrentados na área hídrica e de energia e possivelmente mais instabilidade política, existe o risco de que a presidente Dilma acabe travando o processo decisório para superar a crise atual. “Acho difícil Dilma recuperar a popularidade. Só com um milagre econômico no Brasil. Sem isto, ela não se recupera”, avaliou.

No desfecho do encontro, Sérgio Abranches disse que estava enamorado com o Brasil, depois das manifestações de rua. Ele revelou que tinha uma certa inveja dos argentinos, por fazerem panelaços, reclamando do que achavam estar errado na condução dos governos. “O Brasil tolerou muita coisa assistindo novelas na TV, mas agora parece que o Brasil se encontrou. Eu estou encantado. Não estou entendendo as razões, o importante é que as pessoas se movem, foram berrar. Isto agita os políticos, é assim que eles reprimem os seus piores impulsos. A saída é essa, educar o povo a longo prazo. Não adianta dar um cheque no fim do mês e viver o tempo todo abrindo mão do seu futuro”.


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